ODESBLOG

A moda não deu samba na Sapucaí

Por Dario Caldas

O Rio e a moda não andam de bem. Primeiro, foi a saraivada de críticas a várias marcas que apresentaram desfiles na última temporada, acusadas de cópia pela mídia especializada, dentro e fora do Brasil. Agora, foi a vez do desfile da Porto da Pedra, que teve a moda como enredo. Confesso que estava ansioso por ver o que resultaria da associação carnaval+moda, já que é recorrente o uso do carnaval como imagem para criticar criações e desfiles de moda mal sucedidos. Infelizmente, a escola de samba se perdeu em um festival de equívocos e de imagens-marmitex. A escola optou por uma visão arcaica da moda, sem modernidade nenhuma, e pior, gerando frequentemente imagens cafonas e de mau gosto – o pecado capital da moda. A decisão de fazer um desfile baseado na história da indumentária, com as alas vestidas de acordo com períodos históricos ou décadas, foi óbvia demais e era exatamente o que devia ser evitado. O resultado foi uma aula mal dada, uma sucessão de egípcios, bizantinos, luíses e românticos, empaçocados em um entediante mar de dourado. O que ocorreu foi bizarro. A certa altura, aquela sucessão de fantasias-clichê davam a ideia de que o tema do enredo não era a moda, mas o próprio carnaval (a sua irmã ou a sua vizinha não se fantasiaram de grega, egípcia ou hippie alguma vez, para ir ao baile do clube ou sair em alguma escola?). Algumas imagens se salvaram, é claro, caso do carro neoclássico evocando a releitura das colunas gregas feita pelos vestidos de então. Ou quando a coisa toda descambava literalmente para a farra, como o tigre “pierçado”, as drags-rococó ou a Cleópatra gordinha. Mas faltou talento e imaginação para pôr na avenida os atributos da própria moda e sua modernidade. A esse respeito, aliás, a Unidos da Tijuca, escola campeã do Rio, embora falasse de outra coisa, foi muito mais criativa: sua comissão de frente, que usou truques ilusionistas para fazer com que as integrantes mudassem de roupa diversas vezes em um estalar de dedos, representou muito melhor a essência da moda, isto é, a mudança permanente e apenas por mudar, do que a associação meninas/vestir bonecas como origem do impulso à moda, que a Porto da Pedra levou à Sapucaí. Com tanto estilista, especialista e fashionista no último carro, não teve ninguém para palpitar e ajudar a escola a não se enrolar nos próprios panos?

 | Enviar por e-mail

Uma resposta para “ ”

  1. maria laura c. silva Fevereiro 19th, 2010 09:25

    Concordo em número, gênero e grau com sua análise. Sou profissional da àrea e confesso que me causou um certo constrangimento assistir a “aula de apostila” que a escola em questão nos deu.
    Lamentável!

Deixe uma resposta.