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Arquivo da categoria ‘TirAoAlvo’

A moda não deu samba na Sapucaí

Por Dario Caldas

Porto da Pedra (Fonte:Uol) - Ala hippie: fantasia da fantasia

O Rio e a moda não andam de bem. Primeiro, foi a saraivada de críticas a várias marcas que apresentaram desfiles na última temporada, acusadas de cópia pela mídia especializada, dentro e fora do Brasil. Agora, foi a vez do desfile da Porto da Pedra, que teve a moda como enredo. (leia mais)

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O que vem com tudo e, contudo, vai-se

por Dario Caldas

O novo quadro de Regina Casé para o “Fantástico”, que fala sobre tendências, é um contraponto estimulante no debate que se trava, atualmente, sobre a sua banalização, sobretudo em termos de prática profissional. Na realidade, o quadro identifica “tendências” prioritariamente com moda ou modismos (fenômenos passageiros), e ridiculariza, com toda a razão, o fato de que “tem tendência para tudo”. Por meio da crítica bem-humorada e da desqualificação sistemática - e com o auxílio luxuoso das personagens de Casé, em grande forma (a detenta por “delitos capilares” e o cajuzinho suicida já são antológicos), o quadro acaba ajudando a diferenciar, por contraste e mesmo que involuntariamente, de um lado o cool hunting banalizado (“todo mundo pode apontar tendências”, “tudo é sinal”) e, de outro, a análise profissional, prospectiva e estratégica dos comportamentos emergentes e das correntes socioculturais.

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O automóvel em crise de libido

Por Dario Caldas

A indústria automobilística é a que mais vem sofrendo abalos com a crise, principalmente fora do Brasil. Mas há mais do que queda nas vendas, concordata e parceria de grandes marcas. O automóvel , que é todo um pacote de estilo de vida, está sob forte revisão. Veja-se o caso da cidade alemã Vauban, a primeira a praticamente abolir o automóvel. Entre os jovens, o carro perdeu bastante espaço como objeto inconteste de desejo, só não admite quem nao quer ou não pode. Afinal, há tanta coisa mais interessante para fazer do que ficar parado no trânsito… O Valor discutiu o assunto na edição do último final de semana, mas os argumentos da indústria para se preparar para o consumidor da Geração Y (ou C, ou Digital, ou “Millenials”, ou o próximo nome que quiserem inventar para definir sempre a mesma coisa: a geração daqueles que já nasceram sob os influxos das tecnologias de comunicação e informação), esses argumentos são no mínimo risíveis, como a idéia de que um dia, na megacidade totalmente sob controle, os carros andarão todos à mesma velocidade e a distância controlada uns dos outros! Tenho para mim que nem na Noruega isso daria certo, e olha que lá só tem 4 milhões de mortais educadíssimos. De qualquer modo, se assim for, aí é que ninguém mais vai querer carro mesmo, não é? E vem montadora chinesa por aqui, e dá-lhe renovação da frota americana com as novas exigências de Obama… A indústria é dinâmica, o mercado a explorar nos emergentes ainda imenso, mas no fundo, a crise do carro é de libido mesmo - e para essa vai precisar mais do que incentivar o consumo ou “transcriá-lo” em chave verde.

Ferrari Girl - Foto da artista Jaqueline Hassink

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A guerra dos muros

Por Dario Caldas

De um lado, grafieteiros, de outro, pichadores. Ou melhor, de um lado grafiteiros mainstream, de outro pichadores-com-causa e grafiteiros underground, e de um terceiro lado, os pichadores “autênticos”. Faz sentido? O fato é que a situação nesse “segmento” se complica, com os ataques da turma cabeça de pichadores que tomou conta da Bienal, depois de praticar atos semelhantes em faculdades, galerias e grafites das ruas de São Paulo. A imprensa protesta, as empresas (que grafitam os seus muros e portas para evitar pichações) protestam, e os grafiteiros mainstream, acusados de “vendidos”, também. Já os pichadores-com-causa justificam suas ações com o mesmo refrão dos pichadores “autênticos” - devolve-se à metrópole a dureza com que ela nos trata igualmente a todos (uns mais igualmente que outros, acrescentamos nós) - só que eles, os com-causa, são bem nutridos e universitários, enquanto os autênticos vêm das periferias e das franjas do consumo. Lembramos daquele primeiro círculo de difusão do punk, quando o movimento perde força entre os punks “autênticos”, na virada dos anos 80, e ganha o meio universitário londrino, já com a dupla Vivienne Westwood/Malcom MacLaren em ação. Agora, que purismo é esse, dessa turma que quer dizer o que pode e o que não pode, em plenos anos 2010? Garfite underground pode, grafite limpinho não pode… será a síndrome da Dra. Lorca? Bom, é verdade que o grafite em si já é maisntream, vide os guias dos melhores grafites da cidade que a grande imprensa vem publicando (Revista da Folha, e agora o do Daniel Piza, no Estadão de 02/11), também tem muita gente lucrando com a arte urbana, por exemplo empresas de design que “divulgam” essa manifestação, estampando pratos e canecos com grafites “únicos e exclusivos” de jovens grafiteiros querendo mesmo divulgar o seu trabalho e ganhar algum. A institucionalização, depois da etapa galerias, passa agora pelos museus - a mais recente manifestação é a exposição de osgemeos no Museu Oscar Niemeyer, em Curitiba. Mas - e daí? Já se sabe faz tempo que o destino dos movimentos de estilo e do “novo” que emerge das ruas é ser cooptado pela cultura oficial e perder em força de contestação. Ainda sobre a institucionalização do grafite: Interessante notar, na exposição de osgemeos, que as obras (bom, se está no museu já dá para falar assim, ou não?) funcionam sobre a parede, mas não funcionam em qualquer suporte. Quando se transformam em “telas”, os grafites perdem alguma coisa de seu encanto original e da magia do traço da dupla, quase caindo em um registro naïf meio banal - a perda de punch a que se aludiu acima…

osgemeos - osgemeos

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Consumo conspícuo e democratização são temas da hora

Por Dario Caldas

No último domingo, 31/08, o caderno Mais! da Folha de S.Paulo (link só para assinantes) trouxe três artigos rediscutindo a moda e o luxo. Antes de mais nada, um grande “viva!” ao espaço de prestígio concedido a essa discussão. Minha idéia, aqui, é continuar o debate.

Na entrevista concedida pelo filósofo sueco Lars Svenden a Alcino Leite Neto, me chamou a atenção a crítica que ele fez a uma idéia fundamental de Gilles Lipovetsky sobre a moda, contida no “Império do Efêmero”: a “função democrática” que a moda cumpriria nas sociedades modernas. Ao ser perguntado sobre esse ponto, Svenden afirmou que “o número de peças de roupas que podemos encontrar no guarda-roupa do cidadão mediano não chega a ser um bom indicativo do funcionamento adequado, ou não, das instituições democráticas de seu país”. Isso é óbvio. Ninguém faria tal afirmação, sobretudo não é isso que diz Lipovetsky no “Império do Efêmero” - aliás, como costumo dizer, um dos livros mais citados e menos lidos de todos os tempos (sobretudo pelos estudantes de moda). O que Lipovetsky afirma é que a moda, como forma de funcionamento da cultura (a “forma moda”, como dizem os sociólogos) favoreceu a democratização das sociedades, a partir do início da idade Moderna, à medida que permitiu ao indivíduo (a própria noção de indivíduo é outra “novidade” dessa época) exercer crescentemente o seu poder de escolha, liberando-se do peso da tradição como única forma de conduta possível. “Moda”, então, passou a significar mudança, abertura ao novo, gosto pelo moderno, possibilidade de exercer a sua individualidade. Como se vê, nada a ver com a quantidade de peças que você tem no guarda-roupa, argumento bastante ingênuo de Svendsen (cujo livro, confesso, não conheço - minha crítica, aqui, parte apenas da entrevista do Mais!, que fique bem claro).

Outro artigo interessante, “Luxo Conceitual” relata os resultados de uma pesquisa realizada por três pesquisadores das universidades de Chicago e da Pensilvânia, recolocando em discussão o clássico conceito de “consumo conspícuo” definido por Veblen, ainda no final do século XIX, e em parte negado (o status como único motor do consumo) pelas teorias atualmente em voga. A pesquisa também postula uma correlação entre formas de consumo e etnias. São dados polêmicos. Como o artigo é um resumo de um trabalho científico, não dá para discutir a fundo, mas dá para afirmar que as dados relativos aos negros e latinos norte-americanos são, de cara, mais aceitáveis, até pela lógica (um gosto particular, mais maximalista, faz a cama para uma propensão a consumir artigos de luxo mais vistosos, com acentuada preferência por jóias e grifes mais “ostensivas”). No entanto, daí a afirmar que o jogo todo se resuma, novamente, a status, ou a não parecer pobre, como afirmam os pesquisadores, me parece bem mais contestável. A correlação estatística foi provada (consumo de bens conspícuos x negros e latinos), mas não vi menção a um avaliação qualitativa profunda que provasse que as motivações individuais sejam mais fortemente orientadas por status do que pelo consumo emocional, psicologizado, pela busca de satisfações em outros níveis individuais.

De qualquer modo, e em vista do consumo ascendente das “novas classes médias” brasileiras, e todo o debate recente sobre os critérios de classificação de “classe” que ressurgiram com força na mídia, pela palavra de diversos intelectuais de respeito, creio que há sinais suficientes apontando para uma revisão do “consumo conspícuo” - e até mesmo uma atualização do “Império do Efêmero”, que já tem vinte anos, e que Lipovetsky, em sua recente passagem por São Paulo, me confidenciou já estar em processo de preparação, sem pressa.

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Westwood, manifesto e “exotismo”

Por Dario Caldas

O grande evento da temporada de moda que se encerra hoje em São Paulo foi, sem dúvida, a passagem da estilista inglesa Vivienne Westwood pela cidade. Os pontos fortes foram a sua exposição de sapatos e a leitura do manifesto “Resistência ativa contra a propaganda”. É engraçado, mas as pessoas continuam tendo atitudes disparatadas diante dos estrangeiros. Sim, Westwood é uma das mais importantes estilistas do século XX, e “só” por isso seu trabalho merece o maior respeito. Mas os comentários sobre o tal manifesto em geral variaram do deslumbre puro e simples ao julgamento equivocado e superficial (do tipo “ela é contra a propaganda, mas quer vender caro suas roupas” etc.). Quem se der ao trabalho de ler atentamente o mesmo, verá que não se trata de propaganda no sentido estrito de publicidade, mas no sentido político de dominação ideológica – não por acaso, o próprio Hitler “aparece” no texto, entre tantas outras citações do universo das artes e da filosofia – uma vez que o objetivo é alertar contra a mediocridade globalizada e o recurso à arte como única forma de objetividade e de antídoto ao vazio cultural. Ao contrário de muitos estilistas, Westwood tem idéias e tem o direito de expressá-las, mas isso não significa que ela é genial o tempo todo.

O problema é que Westwood defende, como era de se esperar, que a moda faz parte desse combate, e que as pessoas devem buscar a todo custo a sua auto-expressão, inclusive pelo modo de vestir. Pode-se até concordar e defender essa idéia também, mas não é o que passa, hoje em dia, pela cabeça da geração 2000. Essa ansiedade de se expressar pela roupa é muito anos 80, muito datada, eu diria. Hoje, tem tanta coisa que ocupa o mesmo lugar, as tecnologias abriram tal espaço de possibilidades para a auto-expressão, que a roupa simplesmente deixou de ser o elo central da cadeia de articulações expressivas da subjetividade, como parece ter sido para a geração anterior. Não é de estranhar, portanto, que a neta de Vivienne não consiga entender o jeito como se veste a avó porra-louca, tão século XX.

Nem só de loas e de louros se fez a passagem de Westwood por São Paulo. A gafe do hotel Unique (“não fico aqui de jeito nenhum”) teve que ser consertada no dia seguinte com a desculpa clássica do cônjuge (“foi o meu marido”), tão burguesa. Mas o show de comentários deslocados teve seu apogeu com o provincianismo de Ruy Othake, autor do projeto arquitetônico, justificando a importância do Unique por sua inclusão na lista 2007 dos melhores do mundo da revista Wallpaper – a qual, aliás, é o tipo de publicação de estilo global, estandardizado, sem riscos e sem surpresas, o tipo de mídia “propaganda”, do ponto de vista do manifesto westwoodiano… Por fim, o que foi aquela declaração da estilista de que ela não pretende trazer o desfile de sua marca a São Paulo, embora considere a cidade “exótica”? Tradicionalmente, exótico é o distante que os europeus desejam que permaneça de preferência beeeem distante. Lady Westwood trai todo o seu eurocentrismo, com esse adjetivo ato-falho, mas quem ainda se surpreende com as manifestações de caduquice da velha Europa?

Para ler o Manifesto (em inglês):

Manifesto Resistência Ativa à Propaganda

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O Ocaso dos Modernos

Por Dario Caldas

Moderno (pronunciar “mudérrno”) é um termo de muitos significados, usado aqui como sinônimo de um tipo bastante conhecido das faunas urbanas, em qualquer canto do planeta. Ex-transados dos anos 70, por vezes chamados apenas “loucos”, são ascendentes diretos do hype nova-iorquino ou da branchitude parisiense, que imperaram nos anos 80 e 90. Íntimos da moda, sempre à frente das inovações, tinham um pé na transgressão, o outro na distinção como modo de vida. Descobrir antes, adotar primeiro aquilo que seria objeto de desejo pela maioria dali a “x” tempo, brincar de pega-pega com o mundo dos caretas, seus antípodas – talvez seja o que define melhor o perfil do moderno.

Modernos, transados, branchés: hoje, palavras vazias, na avalanche de hiperconsumo que engole e justifica quase tudo o que se encontra pela estrada. O fato é que ser moderno está rapidamente perdendo o sentido, já que não há mais defasagem tempo-espacial, nem mistério, nem corrida para adiante, pois a maioria corre mesmo é na esteira, sem sair do lugar…

O que acontece é compreensível, se analisarmos os dois vetores principais dessa história de “ser moderno”: os jovens e os gays. As novas gerações têm um gosto realmente particular, que eu arrisco mesmo a classificar como a “geração dos sem-gosto”, no sentido do mélange, da promiscuidade de estilos que eles curtem em algumas áreas, e não da falta de. O exemplo mais flagrante é no território da música: pela facilidade de acesso, ouvem Mozart, Britney Spears, o pior pop italiano e Radiohead como se tudo fosse a mesma coisa - aliás, para eles tudo é a mesma coisa. Para os modernos transgressores, havia algo de sujo no “comercial”, automaticamente desclassificável. Hoje, it’s just business, e nem por isso perde valor, ou melhor, ganha algum até. A própria noção de um moderno como referência para comportamentos e atitudes deixa de existir, porque eles não vivem a tendência como imposição de fora para dentro. Estão mais preocupados consigo (até demais) e menos com os outros, este é o lado bom dessa história.

Quanto à cultura gay, o preço da democratização é a banalização da imagem, ensinam os marqueteiros. Ser gay nos anos 80/90 era chique, eles estavam com tudo, sabiam de tudo, experimentaram de um tudo, em matéria de drogas e libido. Torsos nus, batida house, espírito fashion, eram os árbitros do gosto, os aristocratas do estilo, o auge da branchitude. Os héteros mais antenados vestiam-se como os gays – dois anos antes… Hoje, três das maiores capitais gays, Paris, Berlim e Londres, são sintomaticamente administradas por prefeitos gays. Á medida que o ser gay se institucionaliza, também vai se careteando. Em Paris, não há mais uma “noite gay clássica”, no sentido do que foi o Queen nos anos 90 ou o Palace nos 80. Ser gay, sair do armário, carregar a bandeira do arco-íris, tudo isso hoje faz parte do establishment – e atenção, ninguém aqui está falando de orientação sexual. Faz anos que venho apontando essa reversão de clima, o mais legal do estudo de tendências é justamente observar esses momentos nebulosos de passagem e captar “a quente” os sinais de mudança. Lembro-me de ter incluído o tema (da cooptação da cultura gay pelo establishment) pela primeira vez numa palestra de 1998, e o sinal amarelo se acendeu pra mim num filme americano em que mulheres, padres, mães de família e héteros, todo mundo enfim, numa platéia, se levanta e começa a dizer “eu também sou gay”, “eu também sou gay”… Saí do cinema fortemente impressionado com aquilo e comecei a formular a idéia da normalização versus normatização da cultura gay. No Brasil, para abreviar a história, isso desemboca mais ou menos na última novela das 8, com o casal de caras gays enfim na telinha, mas tão bonzinhos, brancos, burgueses e produtivos… enfim, um casal como outro qualquer.

Nem jovens comprometidos com a idéia de vanguarda, nem gays inovadores para alimentar a arena dos “muderrnos”, parece não haver mesmo mais espaço para a transgressão na cultura do hiperconsumo, que engole tudo, normaliza e normatiza tudo, permite tudo para vender mais e melhor. Talvez isso explique em parte porque a violência contra si e contra o outro seja a nova peste, e como tal sem lógica nem controle, a última fronteira da transgressão.

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